domingo, 18 de novembro de 2007

Que l'ASAE, ASAE



A Grande Asae, que permitiu que os portugueses tivessem um Verão descansado com a sua titânica, épica e imortal luta contra a bola de Berlim, escolheu o alvo de Inverno: fecha o Quarteto, o que sempre é uma contribuição para a regeneração da meia dúzia de fanáticos que não querem ir aos cinemas da Castello Lopes e proíbe a ginginha, na mítica minúscula tasca do Rossio, onde secularmente o bebia o típico licor envenenou gerações de portugueses, que podem agora passar a ir beber um sherry à Suíça, ou melhor ainda, uma Coca-cola ao Centro Colombo.
O jornal também traz outra notícia da fúria normalizadora. Parece que o esfíngico ministro dos Negócios Estrangeiros resolveu, sem dar cavaco a ninguém (nem ao próprio), assinar o acordo ortográfico. Nem os seus colegas da cultura (entretida com o "Mar da língua portuguesa") ou da educação (entretido sabe-se lá com quê) tiveram uma palavra a dizer, na ligeireza célere e obviamente inconsciente como tudo foi tratado. Espera-se agora a época em que uma espécie de Asae vá à saída dos prelos e às bibliotecas, novamente de lápis azul em punho, riscar os agás mudos e retirar os cês metediços. Com notícias destas, nem com uma sargalheta de perdiz grelhada e um tinto da Cartuxa, deixa de ser um dia péssimo (embora ajude a minimizar os estragos).

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Perdido



Dizem-me que esta pintura de Francisco Vieira Portuense, "D. Filipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros", pintada em Londres, em 1801, se perdeu completamente num incêndio na casa do proprietário em Lisboa. É (infelizmente, era), a melhor pintura do neoclassicismo português, pelo simbolismo nacionalista e heróico do tema, pela rígida pose Davidiana dos personagens, o colorido aberto, a suavidade da paisagem da entrada do Tejo, ao fundo. Tudo agora perdido. Dizem-me também que a pintura, apesar da sua importância, não estava classificada, não tendo por isso protecção especial. Trágico o sucedido e trágico o nosso empobrecimento. Vamos ficando cada vez mais pobres, tão pobres que, qualquer dia, até a ministra da cultura tem razão.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Uma fresquíssima corvina cozida no vapor e uma experiência nova com um vinho de Alter de Pedro Brigth pareciam animar o dia, mas logo veio a notícia de que afinal a cedência das estradas portuguesas não foi de 92 anos, mas tão só, como o conselho de ministros decidiu, de 75. Para quem passou dos quarenta tanto monta. Lembro-me inevitavelmente da anedota atribuída a D. João II, que teria dito que a herança de seu pai foram "as estradas de Portugal". Aos portugueses de hoje, nem isso nos é dado. O "Príncipe Perfeito" resolveu o caso com o sangue e deportação da grande nobreza lusa. não necessitamos do sangue, mas uma deportação para longe do poder, fazia bem a estes senhores.
Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Não sei se ouvi bem
Justificando o gasto de 1500000 euros na exposição do Hermitage, a Ministra da Cultura (de Portugal, entenda-se!) esclarece que "Portugal tem um Património Imóvel importante, mas um Património Móvel muito fraco". Ouve-se e não se acredita... Mas explica muita coisa. A falta de importância que a mais alta dirigente da cultura do país dá ao património nacional fundamenta a sua política de promoção das maravilhas estrangeiras (russas) - uma pessegada atroz, diga-se -, de criação pública de museus particulares (Berardo), enquanto os museus portugueses lutam pela sobrevivência mais básica e a promoção da arte contemporânea é coisa do passado. Este género de patacoada, ela sim provinciana, passou do salão e da conversa de circunstância para a linguagem política aberta e oficial. Porque não gostará a senhora ministra da arte portuguesa?Talvez porque só se gosta... daquilo que se conhece.